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O desenvolvimento da inteligência artificial (IA) apresenta enormes oportunidades e também riscos, particularmente na circulação de informações sobre a migração. O recente documento Antiqua et Nova do Dicastério para a Doutrina da Fé e para a Cultura e a Educação (2025) destaca a necessidade de distinguir entre a inteligência humana, dom de Deus orientado para a busca da verdade, e a inteligência artificial, que se limita a processar dados e executar tarefas. Somente o ser humano é um sujeito moral capaz de tomar decisões livres e responsáveis.
A comunicação constitui parte essencial da condição humana: não é apenas transmissão de mensagens, mas encontro entre pessoas, visão de mundo e busca compartilhada de sentido. Como apontou Karl-Otto Apel, a ética do discurso exige reconhecer os interlocutores como sujeitos com igual dignidade e capacidade argumentativa. Dessa forma, a comunicação não pode ser reduzida a um instrumento técnico, mas se torna um espaço ético e relacional onde a verdade está em jogo.
O documento Antiqua et Nova dedica especial atenção aos riscos da desinformação produzida com a ajuda da IA (nn. 85-89). Embora essa tecnologia possa servir para compreender realidades complexas, ela também facilita a criação de deepfakes e conteúdos falsos com fins de manipulação. Tais práticas distorcem a relação com a realidade, enfraquecem a confiança social e alimentam a polarização política. Por isso, é necessária regulamentação e responsabilidade compartilhada: combater a desinformação não é tarefa exclusiva dos especialistas, mas de toda a sociedade.
O Papa Francisco, na Mensagem para o Dia Mundial da Paz 2024 e no seu discurso ao G7 sobre IA (2024), advertiu que a tecnologia é um instrumento: pode ser útil ou prejudicial, dependendo do uso que se faz dela. Recordou que a máquina escolhe de forma técnica, por meio de algoritmos, mas só o ser humano decide a partir da sua consciência, colocando em jogo a dignidade e a liberdade. Nessa linha, Leão XIV, em particular na mensagem por ocasião da segunda conferência anual sobre inteligência artificial, ética e governança empresarial (2025); destacou que reconhecer o que torna o ser humano único é essencial para qualquer quadro ético sobre IA.
A desinformação dirigida a migrantes nos EUA cresceu significativamente: de 30% em 2023 para 49,4% em 2025, com 27,2% das pessoas diretamente afetadas por fraudes. Os principais canais são o WhatsApp (39,1%) e o Facebook (34,4%), embora o TikTok e os golpes presenciais estejam aumentando. A maioria das fraudes está relacionada a trâmites migratórios ou trabalhistas, aproveitando-se da necessidade e vulnerabilidade dos migrantes.
Vídeos e imagens manipuladas geram medo e alimentam discursos de ódio contra migrantes
Um caso emblemático ocorreu em setembro de 2025, após uma marcha organizada em Londres pelo ativista de extrema direita Tommy Robinson, que reuniu mais de 100.000 pessoas e terminou em distúrbios. A partir desse protesto, circularam imagens falsas de supostas manifestações anti-imigrantes em toda a Europa. A equipe EuroVerify, da Euronews, identificou vários vídeos manipulados:
Uma gravação aérea de Varsóvia, que na verdade era do Dia da Independência da Polônia em 2023, foi apresentada como um protesto em massa contra a imigração.
Um vídeo das festas de San Fermín, em Pamplona, foi divulgado como símbolo do “despertar cristão da Europa”.
Imagens de torcedores em Hamburgo foram manipuladas como se fossem manifestantes anti-imigrantes.
Até mesmo Elon Musk compartilhou uma montagem gerada por IA que mostrava o protesto em Londres com o Arco do Triunfo de Paris ao fundo, reforçando narrativas de ódio e desinformação. Essas falsidades buscam legitimar sentimentos xenófobos, enfraquecem a coesão social e minam a democracia.
Diante dessa realidade, torna-se urgente uma ética da comunicação. Como afirma Adriano Fabris, vivemos uma “overdose comunicativa”: uma avalanche de fluxos informativos difíceis de discernir. A comunicação pode ser usada e manipulada, mas também segue lógicas que escapam ao controle individual. No entanto, isso não isenta de responsabilidade aqueles que produzem e divulgam mensagens.
A ética comunicativa exige assumir tanto as consequências diretas quanto as indiretas de nossas ações. Ser responsável significa responder aos outros e à verdade que nos interpela. Nesse contexto, a luta contra as notícias falsas sobre migração não é apenas um desafio técnico ou político, mas também ético e espiritual: compromete a defesa da dignidade humana, a promoção da justiça e a construção de uma democracia autêntica.
Fotos: Adobe Stock