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Para falar desta instituição, o Instituto Cristóvão Colombo, é preciso resgatar vários elementos que marcaram o caminho ao longo desses 130 anos. Há que se dizer que o fio dessa história tem sua base efetiva no final do século XIX, período em que a Europa, e a Itália em particular, passavam por uma situação de extrema miséria, o que impôs um caráter de emergência ao povo italiano, ou seja, a necessidade de buscar em outros rincões sua sobrevivência e a dignidade para suas famílias.
Foi ainda neste contexto de sofrimento e falta de perspectivas, em que o povo não conseguia vislumbrar horizontes novos em relação ao futuro de sua gente, que o Papa Leão XIII promulgou a primeira encíclica social da Igreja, no dia 15 de maio de 1891. Essa encíclica abordava a questão social, os direitos dos operários, a fome e os problemas econômicos causados pela Revolução Industrial.
Precisamente cinco anos antes da promulgação desse documento, João Batista Scalabrini, hoje santo da Igreja, em profunda sintonia com o Papa Leão XIII, desde Piacenza, fundou a Congregação dos Missionários de São Carlos, hoje também conhecida como Congregação Scalabriniana.
Foi o contato com a realidade desse tempo, o esvaziamento das comunidades, os movimentos incessantes de pessoas que se deslocavam de um lugar para outro buscando safras para garantir a sobrevivência das famílias, as estações de trem lotadas, os portos, que exigiu de homens e mulheres comprometidos com os destinos dessa gente uma tomada de atitude. Isso impôs aos líderes políticos, mas, neste momento, de modo particular à Igreja, uma preocupação e uma ação efetiva.
Scalabrini, diante da realidade do momento histórico e do drama das migrações desordenadas, sentiu a necessidade de convocar sacerdotes e leigos que se dispusessem a colocar suas vidas a serviço dos migrantes, uma causa relativamente nova dentro das práticas pastorais da Igreja. A criação de um grupo de leigos comprometidos e a fundação da Congregação dos Missionários foram os primeiros passos para responder efetivamente aos sofrimentos experimentados por milhares de imigrantes que, em navios superlotados e sem as mínimas condições básicas para sobreviver, navegavam pelo Oceano Atlântico, aportando no litoral do continente da América do Sul e do Norte.
Atendendo à convocação feita por Dom Scalabrini, alguns missionários se alistaram e, com generosidade, abraçaram essa causa: assistir, acompanhar e fazer-se migrante com os migrantes.
Entre esses estava o Padre José Marchetti, um jovem sacerdote de espírito arrojado e amante da causa migratória. Já em sua primeira viagem, assistiu a cenas que o deixaram inconformado, especialmente pela forma como seu povo era transportado. Ao chegar, transformavam-se em vítimas fáceis de inescrupulosos fazendeiros, que contratavam essa gente sem as mínimas garantias de um futuro que lhes assegurasse esperança.
Podemos ver isso em uma das cartas enviadas ao Arcebispo de Lucca, terra natal do Pe. Marchetti, na qual ele se manifesta: “Nas duas viagens que fiz até agora para a América, assisti a casos de luto; vi jogar nas águas do mar mães e pais, que deixaram na desolação criaturas inocentes. Nas casas de imigração ouvi gritos inconsoláveis de órfãozinhos; nas colônias (fazendas) presenciei a terrível febre amarela, as cobras venenosas e os maus-tratos de alguns fazendeiros que, com procedimentos característicos da escravidão, fazem tantas vítimas e geram uma infinidade de pessoas impotentes e órfãs.”
Diante de tanta dor, abandono e exploração dos menores que viviam pelas ruas, tornando-se vítimas, os imigrantes transformavam-se em alvos fáceis e instrumentos de lucro por “exploradores de carne humana”.
Assim se manifesta o Pe. Marchetti:
“Concebi então no pensamento os meus orfanatos, especialmente porque as autoridades consulares não souberam e não quiseram aceitar um órfão de 17 meses, que deixou a mãe no mar. Porém, confiante no Sagrado Coração de Jesus, entreguei-me à obra. Foi um acontecimento especial da Providência; com efeito, a autoridade leiga deu-me certo crédito em relação a meu intento; as manchetes dos jornais me colocaram diante do público, e o Senhor tocou o coração da autoridade eclesiástica e me tornou propícia. Sofri um pouquinho, mas depois veio o apoio, tanto que, em poucos dias, lancei os fundamentos de dois orfanatos (Ipiranga e Vila Prudente), nos quais, em breve, poderei alojar de 500 a 600 órfãozinhos. O superior de Piacenza me ordenara providenciar, em São Paulo, uma pequena residência para os nossos missionários. Entretanto, Deus quis grande a mencionada residência; tomou e tornou centro da missão aquele rosto que é o coração e toda a imigração: a criança órfã. Deo Gratias! Sempre Deo Gratias!”
De fato, em sua breve passagem pelo Rio de Janeiro e, posteriormente, em São Paulo, destino do maior número de imigrantes, a realidade que mais impactou essa alma generosa e solidária foi a grande quantidade de crianças deixadas à própria sorte. É preciso considerar que, nesse período, os migrantes, em sua maioria, dirigiam-se às fazendas de café do interior paulista.
A travessia para as Américas sempre foi difícil e, neste período, acompanhada por doenças, epidemias e mortes. Com isso, muitas crianças ficaram órfãs, sem ninguém que as amparasse.
O jovem Pe. Marchetti entra decisivamente nessa história e põe em prática um sonho que, já durante a travessia pelo oceano, pulsava em seu coração, fruto das experiências duras e das perdas vividas durante a viagem. Já em suas incursões missionárias nas fazendas de café, assistia a situações de grande sofrimento, pelo descaso com os trabalhadores e pela orfandade das crianças vítimas das epidemias que assolavam o interior paulista.
Ao chegar a São Paulo, em 1894, fruto da Providência divina, teve a graça de conhecer o Conde José Vicente de Azevedo, que lhe doou um terreno na colina do Ipiranga para que seu sonho fosse concretizado.
Em uma das cartas a Dom Scalabrini, apenas um mês após sua chegada, o Pe. Marchetti, com o projeto já em andamento, presta contas ao fundador da Congregação: “A proposta do Orfanato agradou a todos; o lugar para a construção é muito adequado e valorizado. Uma colina na extremidade da cidade de São Paulo, muito apropriada para a casa, para um bonito jardim, para tudo. Deo Gratias! Exatamente como eu tinha sonhado. É uma beleza! Deus queria o Orfanato; eu o vejo, sinto e conheço. Deo Gratias! Formei um Comitê de senhoras, faço conferências, descrevo as situações vividas pelos imigrantes. Eu bato às portas, peço, trabalho, prego, confesso, exorto — mas estou sozinho, e a messe é imensa. Se a visse! As paredes crescem. A Providência, portanto, quis coroar as minhas esperanças, os meus votos e, talvez, também os seus. Emigrantes! Órfãos! Tudo providenciado. (…) Aqui na cidade, já conheci 250 jovens italianos de rua. O governo queria construir uma espécie de cadeia para eles, e Jesus me inspirou a recolhê-los à sombra do Santuário. Que belas comunhões, que mudanças de vida! Que prazer ao coração de Jesus! Sinto-me tão alegre e contente que fico fora de mim.”
Efetivamente, por suas inúmeras iniciativas, batendo à porta de empresários e fazendeiros, motivando a sociedade civil, o projeto de construir o prédio que abrigaria cerca de duzentas crianças foi encaminhado com muita rapidez.
O Instituto Cristóvão Colombo mantém viva a missão scalabriniana de acolher,
formar e promover crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social
Conforme expressa o Pe. José Oscar Beozzo em seu livro “Padre José Marchetti – O contexto de sua vida, trabalhos e sonhos no Brasil”: “Mas o segredo profundo de sua vida estava na sua compaixão pelos desamparados: o pobre, o órfão e a viúva, a trilogia clássica dos profetas acerca da religião pura e agradável a Deus (Is 1,17). Sua dor e abandono o interpelavam pessoalmente, e daí a lista interminável de coisas que queria fazer, à medida que entrava em contato com mais e mais sofrimentos humanos. Sua primeira reação não é a revolta, mas a compaixão; não é a fuga, mas o compromisso e uma extraordinária inteligência para entrever saídas, acompanhada de uma entrega total para torná-las palpáveis e concretas, efetivas e duradouras.”
Diante dos inúmeros sofrimentos e desafios que cotidianamente vinham ao seu encontro, seu sentimento era de total entrega a Deus pelos votos religiosos, acrescido ao voto da caridade. Assim se manifestava Marchetti em uma das tantas cartas dirigidas a Dom Scalabrini, pouco antes de entregar sua vida pelo testemunho da caridade, ao carregar nos braços uma criança abraçada à sua mãe morta, acometida pela epidemia do tifo: “De resto, eis-me pronto para morrer. Desejei tantas vezes o martírio; se, em vez do martírio de sangue, tenho a graça de encontrar o martírio nas fadigas apostólicas, considerar-me-ei feliz.”
Portanto, frente a essa realidade, celebrar 130 anos de história é reconhecer um legado de fé, serviço e transformação na vida de tantos. Desde sua fundação, em dezembro de 1895, o Instituto Cristóvão Colombo tem sido uma presença viva de esperança, oferecendo educação, formação humana e promoção social a milhares de crianças, adolescentes e famílias.
Celebrar, ainda, é fazer memória de tantos que doaram suas vidas em favor desta causa:
Mas essa missão também se construiu com a participação de tantos homens e mulheres, religiosos e leigos, que aqui dedicaram boa parte de suas vidas. Nesta ocasião, nada mais justo que o Instituto lhes prestar sua homenagem e gratidão.
Inspirado pelo carisma scalabriniano, o Instituto assumiu desde o início a missão de acolher, proteger e acompanhar os migrantes, tendo como fundamento os valores cristãos e o compromisso com a dignidade humana. Ao longo das décadas, a Instituição soube adaptar-se às transformações sociais e educativas, sem jamais perder sua essência: formar cidadãos conscientes, solidários e comprometidos com o bem comum.
O caminho percorrido revela conquistas que ultrapassam as paredes da escola: famílias fortalecidas, comunidades mais integradas e jovens preparados para enfrentar os desafios do futuro. O Instituto Cristóvão Colombo é, ao mesmo tempo, memória e futuro, um testemunho vivo de que a educação, a fé e a inclusão são forças capazes de transformar a sociedade.
Hoje, ao celebrar seus 130 anos, o Instituto reafirma sua missão de promover a cidadania e garantir o cuidado com a vida. Sua espiritualidade segue marcada por um profundo sentimento de cuidado e amor. Que esta trajetória centenária siga inspirando novas gerações, mantendo viva a chama do acolhimento e da solidariedade que estiveram presentes na sua origem e que deverão continuar guiando sua caminhada.
Através destes e de tantos outros sinais inspiradores, a Congregação dos Missionários de São Carlos, colaboradores e colaboradoras, leigos e leigas, são convidados a continuar levando adiante, com fidelidade e entrega, o compromisso e a missão que nos foram confiados por São João Batista Scalabrini.
Fotos: Arquivo ICC