O servo peregrino
Entrevista
O servo peregrino
Entrevista

O Religioso Theophile Niyonsenga, CS, natural de Ruanda, traz em sua história o selo profundo da migração vivida ainda na juventude; experiência que não apenas atravessou sua biografia, mas também moldou seu modo de compreender Deus, a Igreja e o mundo.

Em seu percurso vocacional, o caminho pessoal e a missão pastoral se entrelaçam de forma singular. Aquele que um dia partiu como migrante agora se prepara para partir novamente, mas desta vez como missionário enviado aos que vivem a mesma condição.

No momento desta entrevista, Theophile se encontrava às vésperas de uma entrega decisiva: a ordenação diaconal, celebrada no dia 20 de junho de 2026. Esse acontecimento se inscreve como confirmação de uma vocação amadurecida no interior da própria experiência migratória; onde a vida ferida se transforma em serviço, e a história pessoal se abre, finalmente, como missão para o outro.

Confira, a seguir, nossa entrevista com Theophile Niyonsenga.

Theophile professando seus votos perpétuos em 08 de novembro de 2025 na Paróquia São João Batista Precursor e São João Batista Scalabrini, região do Ipiranga, em São Paulo, Brasil

Você nasceu em Ruanda e migrou ainda jovem. Quais desafios mais marcaram essa trajetória?

Os principais desafios que marcaram a minha vida como migrante são vários. A saudade da família e de amigos de muitos anos, a solidão, a dificuldade de aprender novas línguas e novas culturas, e a adaptação a uma cultura e a um modo de pensar e agir diferentes. Esses desafios influenciaram a minha visão sobre a vida e sobre Deus de maneira positiva. Eles se tornaram oportunidades para o meu crescimento em vários aspectos. Me ajudaram a aprender outras línguas, a entender os valores preciosos existentes em várias culturas, a me adaptar a viver em lugares diferentes e a descobrir que há várias maneiras de pensar e agir. Sobretudo, contribuíram para o meu crescimento emocional e espiritual, porque neles sempre Deus se manifestou como amor, proteção e pastor que me acompanha e provê aquilo de que preciso.

Ao chegar ao Brasil, quais foram os maiores desafios de adaptação?

Ao chegar ao Brasil, os maiores desafios permaneceram os mesmos, como a dificuldade de aprendizagem da língua e da cultura, além de estar longe da família, acompanhado pela saudade e, às vezes, pela solidão. Quando cheguei ao Brasil, fui muito bem acolhido na comunidade religiosa e pelo povo. Os brasileiros são abertos ao diálogo e acolhedores. Tive a oportunidade de conhecer vários lugares e cidades no Brasil. Atuei pastoralmente em várias missões e paróquias e, em todos os lugares por onde passei, tive uma boa experiência e fui bem acolhido. O povo brasileiro é profundamente católico e devoto. Uma das experiências mais bonitas que me marcou foi a devoção a Nossa Senhora, presente inclusive em grutas nos morros e em espaços públicos. Isso me ajudou bastante na aprendizagem da língua portuguesa, na adaptação, no meu crescimento pessoal e na minha caminhada de fé e missão.

Ordenação Diaconal de Theophile, realizada em 20 de junho de 2026 na Paróquia e Basílica Menor Nossa Senhora da Boa Viagem, em São Bernardo do Campo, São Paulo, Brasil

Em que momento você sentiu que sua própria história de migração poderia se transformar em uma vocação?

Esse momento aconteceu quando eu era voluntário com a Sociedade de São Francisco de Sales, os Salesianos, na África do Sul, trabalhando no Centro da Juventude e, ao mesmo tempo, nos meus primeiros passos de discernimento vocacional. Tínhamos um grupo de jovens no centro, composto por jovens estrangeiros de vários países e continentes. Ao longo dos encontros, descobri que se tratava de um grupo de Jovens Scalabrinianos. Compartilhamos nossas histórias, realidades, sonhos e desafios, e senti o desejo de ser missionário e me colocar a serviço dos migrantes.

O diaconato não deve ser compreendido apenas como uma etapa de transição rumo ao Sacerdócio, mas como um fundamento essencial da vocação ministerial

Como aconteceu seu encontro com os Missionários Scalabrinianos?

Esses jovens me convidaram para participar da catequese preparatória para a crisma e conhecer a paróquia deles. Eu fui e encontrei o Padre Geraldo García Ponce, CS, então pároco e meu futuro reitor na Filosofia. Ele me apresentou as atividades scalabrinianas e me ajudou a compreender o carisma da Congregação. A partir daí, iniciei o processo de discernimento vocacional. Esse foi o momento que considero como o surgimento da minha vocação como Religioso Scalabriniano.

Foto de Vitor Azevedo

Vitor Azevedo

Jornalista do Departamento Regional de Comunicação da Região Nossa Senhora Mãe dos Migrantes.

Fotos: Arquivo Regional Pascom Paróquia e Basílica Menor Nossa Senhora da Boa Viagem, São Paulo (SP) e Divulgação Paróquia São João Batista Precursor e São João Batista Scalabrini, São Paulo (SP).

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