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No século XIX, a Europa viveu uma verdadeira “globalização migratória”, uma vez que a mobilidade humana envolveu todos os países com movimentos internos e ou externos. Muitos europeus se viram obrigados a abandonar a sua pátria. Portos como de Liverpool, Rotterdam, Amsterdã, Hamburgo, Bremen, Le Havre, Gênova, Nápoles tornaram-se símbolo desse intenso movimento. Estima-se que entre 50 e 60 milhões tenham emigrado.
Dom Scalabrini registra um exemplo da realidade inglesa: “A Inglaterra, em pouco mais de meio século, de 1815 a 1875, enviou da Europa 8.287.620 emigrantes”. A Itália não escapou desse fenômeno, ao contrário, foi um dos países que mais expulsou seus cidadãos. Considerando também as migrações internas, o número total chegou a cerca de 15 milhões. Durante o episcopado de Dom Scalabrini (1876-1905), cerca de 8 milhões de italianos emigraram: mais de 3,8 milhões para Europa e mais de 4 milhões para as Américas (1.771.000 para os Estados Unidos, 1.080.000 para a Argentina e 1.014.000 para o Brasil).
O auge desse movimento ocorreu em 1913, quando 872.598 italianos emigraram: 559.566 para as Américas e 313.032 para a Europa.
Citando o L’Osservatorio Romano de 2 de maio de 1887, Scalabrini relata: “Deste porto (Nápoles) partiram nestes dias para Nova York: o Alsazia, navio inglês a vapor com 80 toneladas de mercadorias e 890 emigrantes; também o Britannia, navio francês, com 300 toneladas de mercadorias e 920 emigrantes”. E acrescenta: “Em um mês partiram cerca de 20 mil emigrantes e, o que é mais importante, a maior parte deles com mulher e filhos”.
As causas da migração eram diversas, desde os desastres naturais, a fome, a instabilidade política, a industrialização e o desemprego. A agricultura, sem mecanização, não sustentava o crescimento populacional (de 25,8 milhões para 33,7 milhões em 1901). Por outro lado, a indústria, ainda na etapa inicial, não absorvia a mão de obra. Os desempregados ficaram com apenas uma opção: emigrar. Os próprios migrantes repetiam: “ou migrar ou roubar”.
Estação de Milão, Itália, no século XIX
Dom Scalabrini observa que as causas da emigração eram morais e econômica e refletiam tanto a busca por melhores condições quanto à “febre por lucros rápidos que contagiou a sociedade italiana desde as classes mais elevadas até a classe mais baixa, à base da escala econômica formada pela enorme massa dos pobres”.
Rumo às Américas, os migrantes viajavam em condições precárias, eram empilhados em navios a vapor, cujo trajeto poderia durar mais de 25 dias, sem conforto. Muitos conseguiram pagar a passagem com grande sacrifício ou com apoio estatal. Dom Scalabrini denunciava, “regra geral é o modo como acontece com o seu transporte. Despachados pior que animais, em número maior do que permite o regulamento e a capacidade dos navios, eles fazem o longo e penoso trajeto literalmente amontoados, com sérios problemas morais e de saúde”.
Ao desembarcarem, enfrentavam novas explorações. Muitos eram contratados como mão de obra barata, perpetuando práticas próximas à escravidão. Chegando ao Brasil, alguns camponeses italianos foram levados nas fazendas de São Paulo e Minas Gerais, a fim de substituir a mão de obra escrava. Estes fazendeiros, sempre com a mentalidade escravocrata, exploravam os italianos em suas plantações. No Sul, a situação foi um pouco melhor, embora ainda marcada por sofrimentos.
Transatlântico britânico RMS Lusitania chegando ao porto de Nova Iorque no século XIX
Casos de fome, violência e exploração de italianos também eram frequentes nos Estados Unidos. Dom Scalabrini escreve: “frequentemente enganados por artimanhas, iludidos por mil promessas falsas, forçados pelas necessidades, vinculam-se com contratos que são uma verdadeira escravidão, e as crianças encaminhadas para a mendicância, para o caminho do delito, e as mulheres lançadas no abismo da desonra”.
Dom Scalabrini, como o bom samaritano, viu, comoveu-se e fez algo para defender os migrantes. Não foi o único. Destacam-se também São Vicente Pallotti, São João Bosco, Santa Francisca Cabrini, Santa Clélia Merloni, o bispo de Filadélfia, São João Nepomuceno Neumann. Fundaram congregações, organizações de Missionários e Missionárias juntamente com leigos comprometidos. O Bispo de Cremona, Dom Geremia Bonomelli, fundou em 1900, a obra Bonomeliana, para cuidar dos migrantes italianos na própria Europa. O Cardeal Andrea Ferrari de Milão enviou padres a Paris para os emigrantes italianos. Entre todos, porém, sobressai Dom João Batista Scalabrini, o “Santo dos Migrantes”.
“Eram migrantes. Vinham das diversas províncias da Alta Itália e aguardavam que o trem os conduzisse às margens do Mediterrâneo. Dali, partiriam rumo às distantes Américas”
(São João Batista Scalabrini, Piacenza, 1887)
Dom Scalabrini começou uma exaustiva busca de conscientização dos italianos, realizou inúmeras palestras, em todo o país, denunciando as causas da migração, apontando alternativas de solução, e procurando compreender a mobilidade humana desde a perspectiva da fé. Além de mobilizar os poderes públicos entendeu a importância do compromisso eclesial. Em 1887 fundou a Congregação dos Missionários de São Carlos – Scalabrinianos, para acompanhar e proteger os italianos nas Américas. Em 1889, criou a Associação São Rafael, com sacerdotes e leigos, para atuarem nos portos de embarques e desembarques, lugares onde os migrantes sofrem os maiores assédios. Em 1895, fundou, com o Pe. José Marchetti e a Ir. Assunta Marchetti, a Congregação das Missionárias de São Carlos – Scalabrinianas.
Em 1905, ano da morte do Fundador, já existiam mais de 50 missões scalabrinianas (paróquias, orfanatos, hospitais etc.) mais de 30 nos Estados Unidos e quase 20 no Brasil. Mais do que simples números, tratava-se de expressão carismática e pastoral da Igreja através da Congregação fundada por Dom Scalabrini.
Hoje, os Scalabrinianos estão em mais de 30 países, onde a mobilidade é mais urgente, procurando ser sinal de esperança, diálogo e aproximação, com a mesma finalidade de levar aos migrantes “o sorriso da pátria e o conforto da fé”, concretizada por meio de diversas obras: centros de apoio, casas de acolhida, centros de orientação, apostolado do mar e igrejas, espaços para renovar a fé e celebrar vida com Deus.
Nota: Todas as citações literais de Scalabrini foram tiradas do seu livro “A emigração italiana na América”. Piacenza, 1887.
Teólogo e Tradutor do Arquivo Regional da Região Nossa Senhora Mãe dos Migrantes.
Fotos: Arquivo Museu da Imigração do Estado de São Paulo, Jornal Cruzeiro do Sul e Arquivo Geral da Congregação Scalabriniana.